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sexta-feira, dezembro 10, 2010

POEMAS (By Rômulo Giacome)

REPUBLICANDO TEXTOS (Safra 2003, 2004 e 2005)

Uma linha na solidão branca;
Nos sonhos leves delírios;
Neves vivas olhos em sangue;
Lírios em mim em nós;
Por todo o corpo um cheiro azul;
Espalhando escamas no rosto branco da musa;
Não; não existem idéias;
palavras tem cheiro; e nada mais
Estão escassas as ruas nuas ainda que vão;
Quem me disse da estruturas ou das escrituras?
Louvado seja eu, que nasci escrito;
Apenas uma linha na solidão branca;
(Rômulo Giácome - 2004)


O fogo repleto em um espaço incerto
Inseto morto no cume da água
queimava mais que lágrimas
No tato incerto de uma língua fogosa

Vagando Moribundo
Marimbondo

tocando a ponta do teu começo

Trombone d´água rugindo nua
Dizendo sempre: tua, tua.

Mas é por demais assim
Um inseto morto no leito d´água
Lançando fogo no olhar sedento
Sede queimando o momento
Sede de tempo e de vento.
(Rômulo Giácome – 2003)

procuro um estado onde a palavra não trema
o som não saia
e não pingue em mim
um clarão de luz
procuro um estado onde a sorte tarde
e tardiamente vazia
recaia
o por do sol

procuro a mancha da idéia em teu sorriso
caustificando
a claustrofóbica dúvida
no contorno da sua presença
um fio de razão
cortando o tempo e a emoção
vazando as nuvens
letargicamente inspirando os mortos a aparecer

vestidos de vida aparecem os mortos
cruzes empunhando o juízo
poças de vida por sobre o asfalto
poças de texto em cima do texto
pingos de i em cima do ponto
pontos na pele de um urso branco

na ressurreição da terra
uma pequena gota de água
sulcando o solo
sulco de espera
lacuna conjuntiva
desesperado o poema procura
um lugar no céu ou no inferno
um lugar para cair
um lugar para morrer em paz

ACEITAÇÃO

as paredes da casa fechavam por sobre os ombros,

alinhados sob a muralha de consciências disparadas na imensidão dos sonhos

juntam restos humanos por sobre folhas mortas atadas ao toco

sustenta o resto da vida que existe no peito depois do horror?

O tempo batuca nas cabeças vazias
O espaço estica na órbita do olho
O resto de jeito que fica no certo
Um resto de certo que fica no torto
Um resto de mundo que fica no texto
Um resto de texto que fica no mundo

Rômulo Giácome, junho de 2005

segunda-feira, novembro 29, 2010

FORMATURA DANIEL BERG: TERCEIRO ANO PLUS

SET LIST DAS MÚSICAS DO "CD LEMBRANÇA" AOS MENINOS E MENINAS DO TERCEIRO ANO PLUS DA ESCOLA DANIEL BERG

Comentários preliminares

Como disse certa vez o poeta chorão:
"
Só o que é bom dura tempo o bastante pra se tornar inesquecível";

Toda a segunda, bem cedo, eu tinha um contrato com a escola; depois, tinha um contrato com a literatura, depois um contrato com um grupo de meninos e meninas inteligentíssimos que discutiam coisas loucas e ensandecidas, um mundo de coisas legais. Não pensava que esta experiência com a garotada pudesse me melhorar tanto; talvez tivesse perdido alguma coisa já esquecida nos trinta e dois anos de pó; talvez o fogo e chama de minhas convicções tivessem ralas e apagadas, mas como brasas, sopros juvenis me acordaram; sei que a única coisa que sustenta um homem são seus ideais; estes ideais esmorecem no decorrer da vida; são claros e fúlgidos na juventude; ralos e apagados no envelhever; um grande homem é aquele que consegue manter viva a chama de seus ideais e crenças; e só é possível manter estas chamas vivas sendo jovem por dentro; só o jovem desafia a morte e a degradação da mesmice; só o jovem é forte o suficiente para se proteger da prostração e da miséria do ceticismo frouxo; a carne acaba, os cabelos e dentes caem, mas as idéias ficam vivas; acesas; estar no meio dos garotos e garotas me fizeram um bem danado; mais ainda é saber que alguma coisa eu pude transmitir e pude ser agraciado com o presente de apadrinhá-los;

MUITO OBRIGADO A TODOS!!

Lista de músicas (todas tem profunda referência e ressonância em minha vida)

1. Smashing Pumpkins - Tonight, tonight; (extasiante)
2. Radiohead - fake plastic trees (cerebral)
3. Belle and Sebastian - my wandering days are over (easy listness)
4. Belle and Sebastian - the boys with the arab strap (evoluindo)
5. Smashing Pumpkins - 1979 (juventude)
6. The Verve - the bitter sweet simphony (apológico)
7. Charlie Brown Jr - Vícios e Virtudes (confessional)
8. Porcas Borboletas - Menos (vida)
9. Mop top - O rock acabou (mentira)
10. Ramones - I im believe (prova da mentira)
11. The Strokes - Hard Explain (novo)
12. Smashing Pumpkins - Rocket (shoegaser)
13. Interpol - Obstacle turn 01 (dance)
14. The Music - the truth is no words (single)
15. The Strokes - Is it this (louca)




quinta-feira, novembro 18, 2010

poema SENSAÇÕES AO ENTREVER DOS ATOS

SENSAÇÕES AO ENTREVER DOS ATOS (2010)
(Poema em homenagem ao 27º aniversário da Helem, minha esposa)

Eu não corrompo um pedaço limpo de linho
puro
a nós prende, ó vida
limpa
canto de quarto de criança, colcha estampada
e lá
um nó no coração arredio; amar pleno, no caos
espelho de nós, lada a lado, lado nenhum, um, nós
uma só coisa pairando sobre o vale profundo

enquanto tudo,
cabeças e
pregos
caindo no vácuo
do nada

e lá de longe
luz verdadeira
que emana da tua presença digna
clara, pele e tez, formas oblíquas, fome!

me indigno de corromper este lívido pedaço branco de mim
que me prende à vida
que se estende por todas as estradas de lama e sujeira, pisadas
um pano branco, lenda, leve, nuvem, vela de um barco alado
voa por entre certezas absurdas e nos faz crer em si, em ti, em mim, em nós
que projeta a certeza de existir
que assegura,
segura
segura
segura
linda!
lindamente em ti!

terça-feira, novembro 09, 2010

(A)FAZERES E (A)FAZIAS - 360º EM FOTOS

NESTES ÚLTIMOS DIAS MUITAS COISAS INTERESSANTES NO MUNDO ACADÊMICOS DO CURSO DE LETRAS TEM ACONTECIDO E MERECEM REGISTRO. PRIMEIRO A PARTICIPAÇÃO DOS ACADÊMICOS E EX-ACADÊMICOS DE LETRAS NA JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNESC. OUTRA, A PÓS EM GRAMÁTICA NORMATIVA, UM SONHO REALIZADO, E QUE TIVE O PROVILÉGIO DE MINISTRAR DISCIPLINA DE FONÉTICA E FONOLOGIA. POR FIM, A PARTICIPAÇÃO NO XV SELL - SEMINÁRIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS - UNIR, EM VILHENA.
PARTICIPAÇÃO DAS EX-ACADÊMICAS DE LETRAS E MEMBROS VITALÍCIOS DO GRUPO DE PESQUISA TEOLITERIAS - LILIAN NAITZEL SIRING E ALCIONE GRACIELA MENDONÇA


TURMA DE LETRAS REUNIDA; SIMPLESMENTE A TURMA!!!! SIMPLY THE BEST!!
LILIAN E A SEMIÓTICA SOB A NOVA VERTENTE; USANDO TAMBÉM GREIMAS E DIVERSIFICANDO A VISÃO NORTE AMERICANA.


ALCIONE E A IMPORTANTE TEORIA DA LITERATURA; DIÁLOGOS COM GOSTO E PÚBLICO EM HAROLD BLOOM;


CONFRONTOS DE GERAÇÕES LITERÁRIAS; MEUS ALUNOS EM CONTATO COM MEUS DOIS GRANDES MESTRES; INUSITADO E PROVIDENCIAL; AGUINALDO E EDUARDO;
IVÃ LOPES, SEMIOTICISTA DA USP; UMA SIMPATIA E UM TEMA AMADO: SEMIÓTICA DA CANÇÃO E VOCAÇÃO: ENCONTROS? QUE GRANDE FELICIDADE
GALERA REUNIDA EM VILHENA; O SELL FOI PEQUENO PARA OS NOSSOS MENINOS DAS LETRAS DE CACOAL, UNESC; GENTE IMPORTANTE ESTAVA NO SELL: CRISTÕVÃO TEZZA, IVÃ LOPES, LEONOR SCCLIAR CABRAL E OUTROS.
PÓS EM GRAMÁTICA NORMATIVA; DISCIPLINA DE FONÉTICA E FONOLOGIA MINISTRADA POR MIM. A LÍNGUA PORTUGUESA SOBRE-EXISTINDO COM QUALIDADE E FORÇA;

quarta-feira, outubro 13, 2010

resenha literária - MILTON HATOUM - ÓRFÃOS DO ELDORADO


MILTON HATOUM E OS ÓRFÃOS DO ELDORADO - UMA SAGA DA MEMÓRIA SOBRE O DESENCONTRO
By Rômulo Giácome

Órfãos do Eldorado é uma história de desencontros (...). Arminto é um protagonista narrador que busca nos desvãos de sua memória a própria vivência (ou sobrevivência) que exala por um buraco na consciência, jorrando lendas, contos amazônicos, fragmentos de uma cultura ribeirinha aflorada. Arminto é descendente dos Cordovil, raça branca colonizadora e exploradora das margens do rio Amazonas. Seu avô já era um grande explorador, que buscava as riquezas minerais e vegetais das grandes matas e rios. Seu pai, Armando, é a grande polarização narrativa ou, o próprio grande vilão que estrutura a tensão do enredo sob o núcleo do filho que não se entende com o pai. Alicerçada por esta contradição simples e presente em vastas obras, Hatoum se diferencia deste tema a partir da própria morte de Armando bem no início, ou a sua des(presença). A forma como Armando afeta o personagem principal, seu filho, proporciona a estruturação sensível desta tensão disfórica. As mãos grandes do pai, a força, a altivez, a firmeza e a ganância. Mesmo após sua morte, Armando continua mais vivo do que nunca, presentificado por Arminto. A nível fabular, Arminto vai no caminho oposto do Pai. Este, construiu um patrimônio a partir do transporte de madeira e borracha pelos rios afluentes do Amazonas até o Pará. Conseguiu comprar barcaças de menor potencial, mas atingiu o maior limite adquirindo um grande cargueiro, cujo nome é Eldorado. (é interessante compreender o valor deste signo sob a face representativa do romance; isto porque o Eldorado barco é a face material / concreta da própria semantização e simbologia do Eldorado: a terra prometida, o por vir, o de vir; quando este grande barco afunda, inicia-se a derrocada da família Cordovil). Por outro lado, Arminto nunca se dedicou à empresa. Quando da morte do Pai, iniciou o processo de dispersão do patrimônio e de qualquer conduta que lembrasse o genitor. Foi relapso, negligente quando do naufrágio do Eldorado. Se manteve fugidio dos negócios, escondido de tudo na grande casa Branca de Vila Bela.
Esta espacialidade de Vila Bela é muito importante para qualquer leitura mais séria sobre a obra. É naquele terreiro de infância, em uma espécie de local natural de dispersão e inocência, que tanto Arminto Pai quanto Arminto Filho se sentem melhor, na famosa Casa Branca. É lá também que as fábulas indígenas se re-encontram no tecido narrativo, a partir da margem do rio, marcando a lenda da cidade encantada escondida debaixo das águas. O Eldorado submerso. É lá também que mora Florita, uma personagem indígena, esbranquiçada pelo processo de aculturação que o narrador promove; mãe de leite de Arminto, torna-se uma (quase) amante do filho de Armando. Ciumenta, não aceita as loucuras do jovem para com Dinaura.
É neste ponto que voltamos a falar de desencontros. Tanto a forma fugidia com que Arminto trata a empresa, Florita e sua cidade, é a própria forma como o jovem se dissipa vaporificamente nos desníveis de Dinaura. Órfã de Pai e Mãe, mora em um convento comandado por uma espanhola. Conhece Dinaura e a partir de então, se diluirá neste amor insano e variável, buscando nos cantos da razão até os desígnios da insanidade. Neste largo desencontro, uma única noite de amor. E nunca mais Dinaura apareceu, como outrora, fugidia, surgia e irrompia novamente às brumas do convento. Rogavam as lendas que Dinaura havia fugido para o fundo do Rio, e habitava a cidade encantada, referência icônica ao Eldorado. Louco e potencialmente corroído, Arminto explora no ódio àqueles que idolatravam seu pai, motivo de escárnio.
Do ponto de vista da construção ficcional, de espaço sobre espaços, cria-se uma formatação semiótica representativa do labirinto. Senão da própria construção de espelhos sobre espelhos, salas sobre salas. A própria espacialidade comportamental de Arminto é projetada nas visões do Rio, em seus subterrâneos, no sumiço de Dinaura, que corresponde a uma outra espacialidade, a das sombras, a do ideal. É a existência do "outro lado", o lado mítico, que abafa o lado lúcido. Louco e fortalecido pela insanidade, Arminto se propõem a gastar as últimas moedas na busca de Dinaura. É neste momento que o romance toma um frescor social advindo da retratação das meninas moças que habitam os margeados, possuídas contra vontade pelos pescadores e caçadores, vendidas ou doadas pelos pais como órfãs destas margens, órfãs dos rios.
Uma marca conclusiva deste romance é a tendência afunilada. Esta espiral narrativa é fruto da importante tradição oral dos contadores de estórias, tema caro ao escritor Hatoum. Neste ínterim, o desfecho se dá sobre dois fatos que merecem real atenção. O avô do autor (figura psico/real) contou esta estória jorrada da mente do Arminto, o próprio, e a transmitiu ao provável escritor. Esta transmissão se fez na esfera da representação da própria memória, como se advinda da consciência e inconsciência de Arminto, já velho. No entanto, na busca de mais detalhes sobre a prosa, o autor foi ao encotro de Arminto, o provável, que na ocasiaõ afirmou: só contei esta história uma vez e agora " minha memória anda apagada, sem força (...)
Por fim, o episódio final deixa resoluto a opção do texto em construir uma órbita semântica de leitura com possibilidades escamoteáveis e jogadas ao infinito. Arminto descobre, por intermédio do grande amigo de seu pai, Estelius (personagem ambíguo e misterioso, sem muitas qualificações dentro da própria narrativa, mas capaz de construir pontes entre o passado e o futuro, tal qual a cena a ser descrita) que Dinaura pode estar em Eldorado, uma cidade mítica, que repousa antigos descendentes dos soldados da borracha e cegos. Arminto toma para si a empreitada de encontrar Dinaura não em um local mágico, mas em um deserto real dentro da mata. Assim, a confluência poética de forças semânticas entre a Eldorado do fundo do mar e aquela que repousa Dinaura, deixa entrever o peso que é ser um órfão deste Eldorado. Um Eldorado naufragado e nunca dante encontrado. Outro escondido e apagado da memórica. Todos gerando uma potência do ato fórico do de vir, do aproximar-se e tentar aproximação. Da abusca da existência mítica da própria representação da cidade perdida. Ao fim, neste eterno retorno, somos todos órfãos do Eldorado. Não aquele, mas sim este nosso, deste lado da gente.

sábado, outubro 09, 2010

O CASO TIRIRICA E DILMA ROUSSEF: DEMOCRACIA OU MASSMEDIA?

O CASO TIRIRICA E DILMA ROUSSEF: DEMOCRACIA OU MASSMEDIA?by Rômulo Giacome

O que pode ter em comum casos tão díspares? O que a política tem a ver com mídia? Bem, desde que Walter Benjamim e Adorno discutiram o poder da indústria cultural, nunca mais os estudos ideológicos foram os mesmos. E nunca mais conceitos como “povo”, “massa”, “telespectador”, “mídia”, “democracia” foram tão próximos. Nós ainda insistimos em separar coisas inseparáveis: conduta social e mídia; ética social e comportamento midiático; democracia e massmedia; já não existe mais separação entre a conduta individual e coletiva. Já somos frutos de um comportamento cada vez mais determinado pelas formas ideológicas dominantes e por um contrato perverso entre todos. Ficamos cada vez mais parecidos e unânimes nos gostos, modos, crenças e valores. Acabamos, cada vez mais gostando das mesmas coisas. Culturalmente somos uma maioria vazia respingada por multi-midiático. É a famosa e amendrontadora estandartização cultural. Confundimos política com futebol. Arte com programa de auditório. Leitura com sofrimento. Estamos assujeitados por uma subjetividade imposta que acreditamos ser nossa, mas é ditada e impregnada por ferramentas poderosas, construídas a partir dos avanços tecnológicos para atingir o maior número possível de pessoas. E este cenário tornou ainda mais complexa nossa realidade eleitoral. Confundimo-nos entre a posição de telespectador e eleitor; Isto porque hoje estão à disposição ferramentas culturais que moldam valores e determinam nossas visões da realidade, de si mesmos e da sociedade em si. Um exemplo é a música. A música pode moldar um valor moral e até uma atitude. Somos brasileiros da geração “deixa para lá”. Vivemos justificados e fundamentos na “ode da preguiça” de mestres como Zeca Pagodinho. “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Esta canção reproduz o ideal brasileiro de conduta e valor. Um povo prostrado e alimentado pela preguiça de estudar e valorizando a ignorância como atributo cultural e histórico. Temos tudo o que precisamos: temos bolsa família, estudamos até entender o mínimo e somos o povo mais feliz do mundo. Como Lavradores, estivadores, camponeses, professores e ensacadores do mundo global, zona rural do mundo ocidental, construímos um estigma de trabalhadores braçais, que ganham pouco e trabalham muito. Ora, temos um presidente que nunca estudou. Em um ambiente assim, que tipo de análise pode proliferar? Que tipo de discussão pode empreender? Que tipo de sistema eleitoral democrático pode existir? Neste ambiente falso de pacificação e paz artificial, está impregnada a unanimidade. 80% dos brasileiros apóiam o Lula? O prelúdio dos estadistas excêntricos e ditadores sempre foi o carisma excessivo e a condição de aceitação unânime do povo. Que tipo de estado democrático de direito pode durar em uma nação unânime? Em uma nação sem oposição, sem crítica, sem energia? Esvaziada pelo pão e pelo circo, o povo brasileiro sangra sem ver. Perdendo o bonde da história, brasileiros potencialmente preparados para competir no mundo globalizado sucumbem ao descaso. Que estado democrático de direito resiste a um STF maculado e manchado? Que estado democrático de direito vota no Palhaço e confunde personagem com cidadão dotado de condições políticas? O caso tiririca é emblemático. Do ponto de vista filosófico, o personagem é uma representação e, portanto, uma ficção. Quem está compromissado? Quem prometeu? Quem compôs as propostas de pauta? O ator ou a personagem? A quem nos dirigimos, ao senhor (não sei o nome do cidadão por detrás da máscara) ou ao palhaço? Quem irá legislar: o palhaço ou o ator? Ou o cidadão? Ou o deputado federal (que alçou grau de personagem)? Notem que ele não se posicionou de modo a entrever o ator do Tiririca. Mas ele foi travestido da própria personagem. Do ponto de vista jurídico, “personagens artísticas” têm capacidade legislativa? Eu posso criar uma personagem e uma nova capacidade civil? Será que eu posso votar no totó da novela das oito? Na verdade, uma personagem como tiririca é um feixe de clichês e palavras de efeito cômico, com trejeitos engraçados e emblemáticos. Não é competente sequer para palhaço. Com piadas sem graça e de humor raso. Imagine legislando.
Esta crise de representação também afeta o cenário presidencial. Na busca por um nome complementar, Lula escolheu o pior. Representando mal o papel de mulher popular e carismática, Dilma é o “avatar” de Lula. Da sua égide, o nosso presidente intenta loucamente pluralizar suas ações com o pronome “nós” (algo impensado para um sujeito com o seu ego). Intenta encanar uma técnica administrativa que caiu de paraquedas em uma corrida presidencial. Uma “forrest gump” que ainda questiona o que está fazendo naquele palanque presidencial, com uma máquina administrativa na mão e uns milhões de votos herdados de outro.
Nesta era da comunicação. Na era dos simulacros mais consistentes do que verdades. Em valores pautados no sensacionalismo dos discursos populistas que destroem instituições. A maior prova da proximidade da cultura midiática com a política são as excessivas vitórias de celebridades. Confundiram estrelas ou pessoas populares com agentes políticos. Confundiram pessoas conhecidas pela massa e veiculadas pela Tv em agentes de transformação pública/política. É a invasão dos pokemons televisivos no universo pseudo-sério dos três poderes. É a diluição dos três poderes e a reconstituição do quarto poder. (mídia). E um salve ao Deputado Estadual Bebeto, Deputado Federal Romário. Um salve ao povo brasileiro. Que vive de salves. Que Deus nos Salve. Que salve minha parca lucidez.

sexta-feira, outubro 01, 2010

PROSA E VERSO: PÁSSARO NO VARAL & REDEMOINHO




Um pássaro fino, intricado na linha do varal
Amarrado a ele o nó do mundo
Verdejando e amarelando dores e sofrilégios
Abóboda beata do céu ao seu arrebol
Voou e cantou em cada varal
Assinalando e fechando o nó do presságio e o crepúsculo
Na casa debaixo um coro de vozes
Na casa bem embaixo
No baixio, um coro de vozes grita sonoro
Baixo, bem abaixo, mulheres de roupa gritam;
E as vozes ecoam em mim a todo tempo;
A sombras pairam noturnas no sol do meio dia
A dor de cabeça não cessa
E a vida deságua no precipício;
(Rômulo Giácome, Outubro 2010)

Corriam em volta da fogueira e cantavam sem parar. Por detrás da abóbada do céu já aparecia a noite, em turbilhões por sobre as cabeças, em ondas de vento frio e faíscas, cinzas e pequenos insetos da fogueira, que rodavam e rodavam, rodavam. Alucinadas crianças se fingiam de surdas e mudas e jogavam-se, quase, na fogueira que crepitava enriquecida pelos devotos que a alimentavam de comida, papéis e devoção, lambendo as bandeirolas penduradas. Então, um grande vento se fez presente, e revoando, derrubando os copos fumegantes, derrubando as palhas que encandeciam, amassando o vestido branco da noiva, se fez redemoinho, dos pequenos passou a grande, enfezado gemeu no banco, rodopiou na curva e parou no meio do povo, que gritava loucamente: viva são João. Viva são João. E eu podia ver. São João vivia no redemoinho. (Rômulo Giácome, 2007).


segunda-feira, setembro 27, 2010

SELL - SEMINÁRIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS - UNIR/VILHENA


XV SELL - SEMINÁRIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS - UNIR - VILHENA

DIAS: 06, 07 e 08 DE OUTUBRO.

POR QUE IR? O SELL é o maior evento de Letras e áreas afins do Estado. Congrega grandes personalidades das Letras do Brasil e confraterniza o saber letrólogo universitário em toda região Norte. É um orgulho ir ao SELL e ver a chama forte das Letras em um mundo que cada vez mais necessita delas, mas muitas vezes as não reconhece.

Segue programação:

PROGRAMAÇÃO
06 de outubro
8h - Entrega do material
10h às 11h30min - Sessões de comunicação

14h - Abertura
14h30min - Palestra:
Surpresas Literárias: Um Machado
desconhecido
Drª. Cyana Leahy-Dios (UFRJ)
15h30min - Mesa Redonda de Ensino de Língua
Portuguesa
19h - Palestra:
Fernando Pessoa Eu, e os outros
Drª. Elêusis Mirian Camocardi (UNESP)

07 de outubro
8h às 11h30min - Mini-Cursos
14h - Palestra:
Como adquirimos a linguagem escrita
Drª. Cancionilla Janzkovski Cardoso (UFMT)

15h30min - Palestra:
Como aplicar material pedagógico inovador à alfabetização
Drª. Catedrática Leonor Scliar-Cabral (UFSC)

19h - Palestra:
Gêneros discursivos e ensino de língua materna
Dr. Carlos Alberto Faraco (UFPR)

08 de outubro
8h às 11h30min - Mini-Cursos
14h - Mesa Redonda de Literatura
15h30min – Palestra:
Semiótica da canção
Dr. Ivan Lopes (USP)

19h - Palestra:
O romance brasileiro na última década
Cristovão Cesar Tezza (Escritor)

quarta-feira, setembro 15, 2010

resenha jurídica - O CASO DOS DENUNCIANTES INVEJOSOS


O CASO DOS DENUNCIANTES INVEJOSOS - Resenha Jurídica

by Rômulo Giácome


O curso de Direito é uma grande aventura para mim. Como uma grande aventura, trás alguns desafios perigosos. Como exemplo teórico, posso elencar a dificuldade de perscrutar os conceitos epistemológicos da ciência e filosofia jurídica, seus embrincamentos e suas implicações conceituais. Este problema surge quanto comento alguma obra jurídica que li, ou quando necessito construir um conhecimento jurídico. Por este viés de desafio e aventura, faço esta pequena resenha crítica, com a profundidade objetiva que me é permitida, relacionando na medida das possibilidades sistemáticas da minha parca altura intelectual neste novo seara.
Bem, iniciamos entendendo que esta obra está estruturada sobre um dialogismo. Ou seja, um diálogo dicotômico entre teorias propostas e propaladas por pares. Assim, de uma situação problema, surgem tentativas de respostas a solucionar este dilema, que está concentrado na mão do possível ministro da justiça, o leitor. Assujeitando-se, o leitor passa a ter o dever de escolher a melhor resposta, a melhor solução ao problema acontecido. É intrigante poder se posicionar e defender as várias vozes propostas no debate, o que torna a obra interativa e multifocal, ou seja, polifônica.
O problema em tela refere-se ao ocorrido em determinado país (ficcional), totalmente democrático, que passa por um golpe, constituindo uma ditadura dos camisas-púrpuras, que concebem novos pilares constitucionais, uma nova legislação; decretos são criados ao bel prazer do partido e juízes executam e julgam a partir de resoluções prontamente políticas. Neste ambiente desconstruído, irrompe a figura dos denunciantes invejosos. São pessoas que passam a denunciar aqueles inimigos do regime, e estes passam a ser punidos severamente, por meio de um código penal que ampara esta nova situação. Por qualquer motivo aparente ou não aparente, rizível ou não, os denunciantes, que outrora eram renegados pelo sistema, passam a vingar-se daqueles que estavam no poder. A obra cita um caso interessante: um amante, interessado em obter a mulher alheia definitivamente, denuncia o marido, que punido, deixa seu caminho livre frente à pretendida.
O fato é que este regime teve fim; rompido seus tentáculos vermelhos, o estado democrático volta a esculpir noções de um novo direito. O ordenamento teve que ser remodelado; os rebeldes do antigo regime presos e o clima de pacificação de estado livre volta a soprar. Agora, na pessoa de Ministro da Justiça, você, leitor, deve decidir o que fazer com os denunciantes invejosos que ainda restaram. Prendê-los? Deixá-los ilesos? Puni-los com leis penais? Deixar que a sociedade exerça a auto-tutela e varra estes indivíduos da face daquele país?
Para responder esta questão, foram convocados cinco deputados, na figura de legisladores, para propor suas sugestões. É daí que o livro engendra uma situação interessante: a disputa legislador e operador do direito, além do aclamado e odiado doutrinador. Uma crítica insólita que o livro antevê em suas entrelinhas surge da forma como os juristas foram chamados para resolver, uma vez que a ótica dos deputados determinou-se muito senso-comum. Soa ácida a idéia de que estes deputados não dão conta de um problema jurídico, sendo eles os criadores da lei, ou ao menos aqueles em quem se confia este poder.
Podemos resumir rapidamente a visão dos deputados:
O primeiro deputado parte do princípio da segurança jurídica e manutenção do princípio legal; mesmo que errado e incoerente, existia um sistema jurídico vigente, logo não é possível fazer nada; caso façamos, segundo ele, estaremos destruindo princípios fortes do ordenamento jurídico, ou seja, seus pilares mais exíguos. Em análise mais acurada, este deputado eleva o próprio sistema jurídico a existe no causa. Ou seja, por si mesmo sua existência se justifica. O que conclui em uma perspectiva ontológica do ordenamento jurídico.
O segundo deputado considera o direito algo maior do que um simples emaranhado de leis e normas. Para ele, existe uma complexa teia de valores que ordenam o sistema jurídico, como o próprio princípio da justiça para todos, atitudes equinânimes e equivalentes. Assim, leva-se em conta mais fatores do entendimento que aquele regime não estava sob a plataforma de um direito legal e justo. Estava, na verdade, sobre um programa jurídico falso, sem destinatário. O segundo deputado conclui que, por não existir um regime jurídico válido e todos estarmos vivendo uma guerra, não podemos punir os denunciantes invejosos, pois estávamos em uma espécie de estado de exceção. Uma fase da guerra que não pode ser avaliada aos olhos do estado Democrático.
O terceiro deputado explora o fato de que nem todo sistema jurídico foi afetado. Muitas outras coisas ocorriam normalmente no seio deste ordenamento comandado pelos camisas púrpuras; contratos eram celebrados, casamentos e transações comerciais. Assim, só aqueles fatos realmente parciais, instrumentalizados a partir da determinação ideológica e factual dos camisas púrpuras decantaram negativamente a noção de justiça e direito. Logo, para este deputado, os fatos específicos devem ser punidos na medida da lei atual.
O quarto deputado não consegue vislumbrar a possibilidade de julgar apenas os casos “supostamente” encarados como atos dos camisas púrpuras. Segundo o legislador, seria como se tivéssemos as mesmas atitudes anteriores, usando do regime para motivações parciais. Uma espécie de ciclo de vinganças em prol desta “falsa justiça”. A proposta dele, enquanto legislador, é criar uma lei específica que puna os denunciantes invejosos. Uma lei que discuta, classifique e execute.
O quinto e último deputado arguiu de modo a combater os deputados anteriores. Segundo este, não é possível combater injustiças, mesmo que possivelmente válidas, com o tratamento odioso do legislador: editar leis retroativas. Fere consideravelmente a solidez do direito, a legitimidade de seus atos e valores, a condição da segurança jurídica e a validade de sua aplicação. No entanto, este deputado sugere medida transloucada. Que a própria sociedade puna os denunciantes. Para isto, os sistemas jurídicos fariam vistas grossas ao exercício de auto-tutela empreendida pela própria sociedade.
A partir destas visões, não tão jurídicas, irrompem a visão dos professores de direito, convocados para clarear ainda mais a situação. E é aí que o livro torna-se interessante aos olhos dos estudantes. Falar de cada proposta também é discutir um pouco dos elementos jurídicos que norteiam as falas. Assim, cinco juristas e/ou doutrinadores são chamados para por termo à situação. Cada proposta enleva e norteia pontos nodais do pensamento jurídico e noções éticas e morais, bem como históricas do problema. Os operadores do direito partem do seguinte panorama (importantíssimo para entender):
O que cada deputado sugeriu fazer:a) deixar os camisas-púrpuras impunes;
b) criar uma legislação retroativa;
c) Persegui-los;
Quais os dilemas jurídicos em questão:
a) Mesmo que injustas, as normas em vigência no mandato dos camisas-púrpuras eram legais;
b) Durante o mandato em que agiram os denunciantes invejosos não existiu direito válido;
c) Somente devem ser invalidadas as normas que iam de encontro aos ideais de justiça;
Eis a visão de cada Jurista:
Dr Gondenage
Existe um fim maior no direito; é idealista e afirma uma espécie de imperativo categórico Kantiano, discutindo o finalismo do “justo” e da “justiça”; critica os positivistas e iluministas que consolidaram um direito baseado somente nas leis dos legisladores, que escravizam os operadores do direito. Assim, o direito bem aplicado deve passar pelo crivo das relações sociais e do pensamento “justo” e seus desdobramentos. Afirma que os denunciantes invejosos devem ser punidos.
Dr. Wendelin
Este critica o pensamento idealista do primeiro. Não acredita em um justo ou injusto que apenas ecoa na consciência de cada um. Critica este subjetivismo moral e imoral. Critica também a possibilidade de acertar em dizer o justo ou injusto. Para ele estas noções são relativas, assim como são os movimentos sociais e culturais, que mudam seus valores conforme o poder dominante na época histórica. Também discute a relativização das palavras, pensamentos e cultura, construindo novos valores a cada ciclo; por isto crê na força concedida aos tribunais para discutir cada caso em especial. Acredita na forma do juiz em otimizar a energia da decisão naquilo que crê como verdade. De certo modo, este jurista expressa a carga ideológica que o direito possui. Ele está a mercê dos próprios valores sociais. Valores positivos, direito justo. Valores negativos, direito injusto. Claro fica que ele não acredita no direito enquanto transformador social. Mas deixa fortificado a noção do poder do juiz e dos tribunais. Finaliza assegurando que não é preciso punir os denunciantes invejosos, pois se queremos construir um novo direito, limpo e justo, não pode ser embasado na vingança.
Profª. Sting.
Esta jurista é colocada de modo a parcializar o direito e despistar o leitor. Ela muda o foco da discussão e engendra a formatação de um discurso jurídico machista. Acredita que a parcialidade jurídica sobre maiorias elimina o justo e o real da direção do direito. A fala propalada por esta personagem nos faz refletir sobre a posição do direito nas manifestações tribais e culturais que determinam relações de poder entre grupos. Existe sempre uma posição falante diferenciada: alguns elevados e outros por baixo. Esta decantação da relação de poder é combatida pela nobre jurista, que intenta, em seu discurso, promover uma comissão técnica para discutir todo o ordenamento, em vez de tentar esforços desnecessários de punir os denunciantes invejosos, o que seria de um machismo repugnante.
Prof. Satene
Este jurista critica a posição da Dra Sting, pois também cita um caso onde a mulher denuncia o marido para ficar com o amante. Assim, induz que a mulher também é passiva das mesmas intempéries jurídicas do sistema vigente. O que é interessante na concepção de Satene é a perspectiva de um direito interpretativo das relações sociais em dois momentos: a interpretação da sociedade feita pelos legisladores que criam as leis; a interpretação dos tribunais que aplicam estas normas. E por fim, o Juiz, que executa e interpreta de acordo com princípios de base. Ainda segundo Satene, não podemos encarar o direito como um conjunto frio de normas outorgadas pelo legislador. Na verdade, a possibilidade de inclusão de valores, flexibilidade de aplicação de princípios e outros elementos jurisprudenciais ancoram a noção de direito interpretativo. Assim, não é a letra fria da lei, mas sim a possibilidade de aplicação que o juiz pode instaurar, mediada pela sociedade. Se por um lado, segundo o autor, o juiz tem a responsabilidade de julgar e pode inovar, ele também tem o ônus dos julgamentos que promove. Assim, não é só punindo os denunciantes, mas também os juízes que aplicaram uma lei injusta. Os promotores, oficiais e todos aqueles que atuaram sobre esta égide jurídica promoveram injustiças e devem ser punidos.

Profª. Bernadotti
Eis aqui a melhor visão de todas, justamente colocada no final para concluir o raciocínio, ao menos supostamente. Como posso encarar um direito “justo” se estes valores são escamoteáveis, sofrem pressões sociais, pressões hierárquicas e principalmente ideológicas? Como mudar um direito que é um instrumento para um programa social e político? Os Denunciantes invejosos fizeram uso da legislação para propor um período de terror. No entanto, não tivemos restrições quanto a isso. Os juízes atuaram e todos os outros membros da justiça também atuaram prontamente. O código estava instaurado, os procedimentos formalizados, mesmo que em prol de uma injustiça. Para cada modelo de poder e sistema produtivo temos o nosso direito. O nosso código civil é prontamente patrimonialista. Respira este alto teor capital / propriedade. É o novo tempo. É o momento ideológico que vivemos. O sistema jurídico é um instrumento para interesses maiores, de um conglomerado imbricado de poder, oriundo do domínio pleno dos modos de produção e sua riqueza.
Portanto, segundo esta nobre doutrinadora e jurista, a mudança deve ocorrer nos alicerces que sustentam o nosso sistema político. No modo de encarar as relações de poder, o direito como ferramenta para manutenção de um status quo. Assim, punir os denunciantes invejosos é recomeçar o próprio ciclo definido por eles, consagrando o poder como forma plena de opressão e o direito como instrumento de aplicação.
Na minha opinião de resenhista, nenhuma mudança profunda na sociedade consegue persistir sem passar pelos elementos norteadores do que chamamos de civilização: a cultura e os valores; isto implica no nosso modo de ganhar o pão (modo de produção) e como encaramos nossa riqueza. O uso que fazemos dela. Aí fica instaurado o próprio direito, enquanto normatização e formalização do sistema cultural. E esta mudança deve partir dos próprios legisladores, unidos aos poderes políticos, que construíram um novo patamar de discussões, passando pela educação e pela transformação da raça humana.
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segunda-feira, setembro 13, 2010

LUAN SANTANA É NOSSO JUSTIN BIEBER TUPINIQUIM: ESTAMOS SALVOS!



Da mesma forma que existe uma balança comercial, incluindo conceitos de déficit e superáviti, bem como reservas de mercado e impostos de importação e exportação, também identifico uma balança comercial cultural. O que importamos e exportamos e suas relações com a nossa própria cultura e controle governamental. Vejamos. Importamos uma gama de músicos americanos e europeus: bandinhas de quinta, rappers posers / loosers, “divas” siliconadas e coreografias sem conteúdo. Às vezes alguns conteúdos mexicanos explodem por aqui, como os Rebeldes. No entanto, exportamos Tom Jobim, Tropicalismo, Tom Zé, João Gilberto, Mutantes e Secos e Molhados (ainda). Vejam que bom equilíbrio nesta nossa balança cultural de importação? Estamos no lucro, dizem por aí. Exportamos luxo e recebemos lixo. Recentemente vivemos um fenômenos pop de níveis globais. Justin Bieber é seu nome. Um menino que brotou dos cântaros do Youtube e virou fenômeno mundial. Já assimilamos e compramos. Justin já foi importado pela massa. No entanto, nosso Justin Bieber, Fiuk, mesmo com todos os esforços da massiva Globo, não faz sucesso internacional. Por que ninguém importa? Se ele canta tão bem? É coincidência ou o mercado internacional é mais seleto do que o nosso? Parece-me que a massa internacional é mais pensante que a nossa. É só observar o caso Alexandre Pires. Onde ele faz sucesso? Há, ele faz o tão sonhado sucesso latino; nos EUA, só nos guetos dos trabalhadores braçais brasileiros. Mas OTTO, Chico Science e Lenine tocam muito por lá. Qualidade da balança cultural? Recentemente, em festival Nova Yorquino, Tom Zé foi aclamado como grande compositor e responsável por coerência brazuca. Quem deveria homenagear não seria nós, os beneficiados?
Mas, injuriados e determinados pelas ordas malignas da vingança e do ódio, nós, Brazucas, criamos a primeira personalidade jurídico / teen / pop / Cult / Cool / tupiniquim: Luan Santana. É inegável que nosso olho gordo brasileiro não podia aceitar a lacuna de um Justin por aqui. Assim, criamos o nosso "made in Brasil", completo, com tudo o quem direito. Ele deve ser considerado um orgulho entre nós. Ele é o nosso Justin Bieber sertanejo. Vejam que ousadia. Criamos um Justin regional, do campo, com viola e violão, só que sem botina e calça apertada, sem fivela, mas com todas as características teen versáteis tão relevantes à nossa necessidade de mitos volúveis e voláteis, que enchem o rabo de dinheiro, mandam às favas qualquer tentativa racional de evolução de letras, cospem nas raízes e ainda enchem estádios. Ressentimento. Concordo.
Desde que Mário de Andrade e Oswald de Andrade fincaram as bandeiras da nossa poesia de exportação, afirmando: precisamos ter autonomia; criar uma estabilidade criativa; uma invenção brasileira; cambaleamos frente à uma identidade cultural mais forte lá fora do que aqui. Nas cadeiras do College de France, pensadores sabem mais da nossa cultura popular do que nós mesmos. Luan Santanna é nossa vingança. É nossa arma secreta contra os imperadores. Salve nosso poder cultural de resistência. Salve nosso Justin Biebber sertanejo.

quarta-feira, agosto 25, 2010

resumo ROLAND BARTHES - ELEMENTOS DE SEMIOLOGIA - Língua e Fala










ROLAND BARTHES

ELEMENTOS DE SEMIOLOGIA – CAPÍTULO I

LÍNGUA E FALA


Língua e Fala à Dicotomia essencial;

- Realidade inclassificável da língua; a língua não pode ser definida facilmente;

- Simultaneidade: a fala é um ato físico, fisiológico, psíquico, individual e social;

- Todo coletivo social é “língua”


LÍNGUA É A LINGUAGEM MENOS A FALA


Língua: Instituição social e sistema de valores Exemplos: (hierarquia / moda / conveniência / norma culta)

Língua: - Sistema coletivo autônomo (cresce / diminui / recicla / vida própria)

- Contratual (contrato entre os falantes)

- Possui valores e regras;

- “jogo” à signo é uma moeda; tem valores próprios;

FALA É UM ATO INDIVIDUAL

ATUALIZAÇÃO E SELEÇÃO

COMO NASCEM E MORREM AS LÍNGUAS? (REFLEXÃO)

Alguns conceitos sobre fala:

“mecanismo psicofísicos que lhe permitem exteriorizar estas combinações”

“fala é um ato individual combinatório e não ato criativo”

Dicotomia: Língua e Fala; ambas se necessitam

“é uma entidade puramente abstrata, uma norma superior ao indivíduo, um conjunto de tipos essenciais que realiza de modo infinitamente individual”

“o tesouro depositado pela prática da fala nos indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade”

“A língua está na massa falante”

“Língua é produto e instrumento da fala”

“Linguística é a ciência da língua e não da fala”

Não se pode separar ou estudar separadamente língua e fala;

Para Hjelmeslev:

Esquema – essência (existência virtual / mundo ideal da língua)

Norma – Realização social (hierarquia / norma culta / gramática perfeita)

Uso – prática individual / uso


ESQUEMA / USO


Esquema à formalização

Uso à prática social

SINTAGMA / PARADIGMA

Lembrar do eixo horizontal e vertical; (seleção e combinação)

Teoria do sintagma à frases já prontas que não exigem construção;

IDIOLETOà “LINGUAGEM ENQUANTO FALADA POR UM SÓ INDIVÍDUO”

TRÊS PROBLEMAS:

O afásico que não se entende

Estilo de um escritor

Grupo minoritário (tribal)


PERSPECTIVAS SEMIOLÓGICAS

SISTEMAS COMUNICATIVOS (sistemas semiológicos) QUE REÚNEM SIGNOS DENTRO DE UM JOGO VALORATIVO E CONTRATUAL, ALICERÇADO PELA CULTURA” (Rômulo)


NOVAS COMBINAÇÕES DE SISTEMAS REPRESENTATIVOS: MODA, COMIDA, CULTURA GERAL; SISTEMA DE VALOR E COMBINAÇÃO;

PROCESSO / SISTEMA

MERLEAU-PONTY – FENOMENOLOGIA

Levy-Strauss – noção de inconsciente (fonte de representações)

Os sonhos são representações simbólicas que voncersam conosco a partir de esquemas; lembrar do sonho com a cobra; a cobra significa “relata” elementos como “medo”; “desconfiança”; “traição”;

“Não são os conteúdos que são inconscientes, mas os significantes”

Formas simbólicas de Lacan



VESTUÁRIO


Vestuário descrito pelo Jornal da moda à não existe fala, pois não existe um ato individual; só a língua em estado puro; uma reprodução das regras e valores da moda; detalhe: existe um grupo de decisão e não uma massa falante que determina;

Vestuário fotografado à existe língua e inicia a fala; mas é uma fala cristalizada, pois demandou da escolha do manequim, canonizado pela beleza amarrada, fechada, com combinatórias limitadas;

Vestuário usado à possibilidade de individualidade e diversidade; modelo do corpo, formas e valores; a língua indumentária e a fala o traje;


COMIDA



LÍNGUA ALIMENTAR:



1 regras de exclusão (tabus alimentares)

2 pelas oposições significantes (doce / salgado)

3 pelos protocolos alimentares que reúnem uma retórica alimentar;

4 pelas regras de associação;


FALA



1 a cozinha de cada um

quarta-feira, agosto 18, 2010

Recomendações Culturais: BERNARDO CARVALHO (Livro), VIOLINS (Música);

NOVE NOITES - Bernardo Carvalho
by Rômulo


A obsessão de pesquisar sobre um antropólogo perdido no vale do Xingu; uma notícia de jornal que inaugura e propicia esta pesquisa profunda em busca da causa de sua morte; cartas e resquícios de memória que ficaram presentes em alguns personagens após 69 anos do ocorrido e o momento do narrador; um narrador real (?), que mostra a busca pelas pegadas; que apresenta suas indiossincrazias em relação ao modelo de Buell Quen (o antropólogo) e o seu pai; Assim começamos a construir os elos de uma obra que mistura realidade, ficção, subjetividade, memória e sensações: onde estará a verdade? Entrevistas com pessoas relacionadas ao fato da morte de Buell, visitas à museus, imersão na tribo Khahô em busca do túmulo do antropólogo; a visão do rio Tocantins; a leitura de cartas que provavelmente foram escritas por Buell e entregues aos seus familiares e amigos; um imenso quebra-cabeça em busca de descortinar a morte do pesquisador indígena;
Bem, este é um romance contemporâneo. Este é um romance polifônico, segundo nosso grande Bahktin. Um romance que se constrói sobre o olhar do leitor, naturalmente sendo um texto de construção do próprio leitor. As várias vozes, relatos e fontes de informação não constrói um enredo; constrói vários enredos possíveis, várias causas da morte e possibilidades de interpretações; neste expectativa do possível, até a verissimilhança foca deformada. "coisas que ouvi e coisas que inventei". Diz o narrador de algumas cartas.
Recomendo a leitura deste romance. Bernardo consegue sintetizar bem as várias vozes textuais com um nexo fabular importante: a alteridade, a vivência em grupo e os dilemas sociais e éticos da pesquisa antropológica.

VIOLINS - "Grandes Infiéis"
by Rômulo Giacome
Falta Criatividade no Rock brasileiro dos últimos anos? Não. Você é que conhece pouco.
Se tem algumas bandas de rock que valem a pena conhecer, esta é sem dúvida uma. "Grandes infiéis" é o segundo disco da banda goiana, que tende ao uso da usina de força da guitarra e arranjos sólidos para remeter sua mensagem. Logo na abertura do disco, uma paulada em "Hans"; paredes sólidas em um arranjo forte de guitarra e baixo. Quase shoegazer, um peso diferenciado no nosso universo do rock nacional. A segunda já é um clássico da banda. "Il Maledito" tem peso e levada. As alternâncias rítmicas marcam o seu poder sonoro. A bateria e o riff de guitarra elétrica constroem uma identidade essencial para a canção, seguida do peso Doom Metal, quase Quens of the stone age, eletrizante. " que me mantém é o contato com o inferno / que retém todo o meu sentimento". Neste disco Violins demonstra uma pequena crise com as questões religiosas. Algumas dúvidas e problemas demonstram este conflito poético que demarca bons momentos nas letras. "Prefiro secar sob o sol do cerrado / a dizer que estava errado". Uma referência improvável a Canudos. "Fiz de tudo para achar seu sinal em mim / mas me desculpe se eu não posso te sentir"."Glória" é mais melodiosa, mas continua com o ataque da bateria e do violão elétrico. Ela é rápida e aberta, sonora. Não há peso do baixo, mas energia no ritmo e nos agudos das cordas. "Atriz" tem excelente ritmo e levada, com maior tensão melódica, traduz a aflição e angústia da mentira revelada na própria metáfora do título. A mulher amada e sua ambiguidade. Também está emulada por um peso metal. Um dos grandes elementos que me lavaram a indicar Violins foi a correspondência de um vocal plano, claro e belo, com uma cozinha atuante, intensa e variada, com toques metal e new metal; atrelado a isto tudo, belas melodias e excelentes construções rítmicas. Não há tentativa de mistura. Há a tentativa de fazer um bom rock and roll, com peso e mensagem. Em "ensaio sobre a poligamia" as variações são tantas que possibilitam ver feiches de influência no antigo e novo rock; até black sabath dos últimos discos. No entanto, a partir de "Vendedor de Rins", "SOS", "Matusalém" e "Angelus" o álbum constrói sua verve; letras pincelando sentimentos e forma de amar, nuances subjetivas da realidade imediata com metáforas claras e nítidas; o poder critativo da banda toma forma em belíssicos refrões e sacadas entre melodia e letra; são canções fortes e constróem o nosso bom e velho imaginário Pop. "O estranho é como eu quis / Ver o entardecer assim como eu nunca fiz / Sóbrio e muito bem assim". Destaco "SOS" como uma grande canção do disco . Contém os elementos necessários para ser belíssima. Um arranjo bem feito e uma excelente linha harmônica entre os intrumentos acústicos. Uma leve presença do som dos anos 90 e Renato Russo. Inicia tocante e depois apresenta-se forte, pancada melódica. Recomendo. Uma outra característica forte do Violins é buscar timbres sintetizados da guitarra com projeções pop da linhagem de Sondgardem dos bons tempos. Pra quem quer vibrar com chuvas de riffs e sacadas criativas de guitarra, mas também quer qualidade vocal, diversidade ritmica e boas letras, VIOLINS.

terça-feira, agosto 03, 2010

VIAGEM PORTO VELHO-RO (JULHO/2007) - FERROVIA MADEIRA MAMORÉ E VAGÕES ESQUECIDOS

Inauguro no blog esta seção On the Road com grande prazer e satisfação pelos relatos de viagem. Confesso ser um gênero não definível e fácil de articular, mas procurarei narrar com fidelidade de memória emotiva, que sempre me leva onde quero. Inspiro-me na grande obra de Jack Kerouac, On the Road. Esta viagem surgiu motivada pela vontade de aprofundar meus conhecimentos acerca da ferrovia Madeira Mamoré.

terça-feira, julho 20, 2010

Resenha - SHREK 4 E TOY STORE 3 - CARA DE CRIANÇA E CORPO DE ADULTO

by Rômulo Giácome

Há muito tempo o cinema dito para "criança" vem sendo objeto de interesse dos adultos; em busca do nostálgico elemento perdido da infância, muitos "grandinhos" tem fervorosamente procurado o cinema infantil, principalmente os desenhos animados, como forma de catarse e eterno retorno, buscando um re-encontro consigo mesmo. A infância reveladora mostra a alegria perdida e o instinto ausente do riso. Filmes como "Os sem Floresta"; "Madagascar" e "Era do Gelo" são construções repletas de elementos fabulares simples e complexos, de sequências de aventuras eletrizantes e marcantes, bem como embalos musicais e coreografias contemporâneas que misturam paródias da cultura pop com a vida do imaginário infantil.

terça-feira, junho 29, 2010

Produção Científica - JOSÉ SARAMAGO: CARNAVALIZAÇÃO NA OBRA MEMORIAL DO CONVENTO


NOTA DO ORIENTADOR: O texto abaixo é o primeiro de uma série de QUATRO textos resultantes de pesquisas literárias e culturais realizadas dentro do grupo de Pesquisa TEOLITERIAS, fechando o clico de atividades para 2010. As pesquisas resultaram em trabalhos monográficos qualificados e defendidos com êxito no bojo institucional. Nesta pesquisa a autora conseguiu aprofundar a complexa relação cultural entre carnavalização e polifonia, tecendo uma ampla teia de referências que perpassam dos tempos medievais e dos ritos, engendrando formas e linguagens contemporâneas, alicerçadas pela magistral capacidade narrativa de Saramago. Tecendo e costurando teoria e toda a principiologia da Carnavalização Baktiniana, Valdenice propõem resultados de amplo aspecto literário e teórico, enriquecendo a academia cacoalense.

MARCAS DE CARNAVALIZAÇÃO EM “MEMORIAL DO CONVENTO”

VALDENICE OLIVEIRA MENDES
Professora, Graduada em Letras, Pesquisadora do Grupo Teoliterias.

A carnavalização é uma leitura irônica de tudo que é sério e que está presente na literatura atual. Para Bakhtin o carnaval teve sua representação mais forte na Idade Média, por meio das histórias contadas por Rabelais, porém, com o tempo, a verdadeira origem carnavalesca foi perdendo alguns traços particulares, mas mantendo sua essência carnavalesca.
Os traços do carnaval permanecem até os dias atuais na literatura devido a sua concepção ampla e traz a ideia de um termo antigo de festa popular. (BAKHTIN, 1999)
O romance “Memorial do Convento” pode ser visto com características que permanecem fiéis ao texto e retratam a época histórica e literária.
No romance, é possível observar as marcas carnavalescas por meio da narrativa irônica que descreve a promessa do rei de construir o convento às duras custas populares, o exagero das ambições burguesas, as procissões religiosas, a autoridade do clero e a grande diferença social em que se divide a sociedade portuguesa presente na obra.
Toda a narrativa de Saramago possui sua marca e estilo que faz com que a linguagem adquira as marcas do passado histórico Português, trazendo originalidade às marcas carnavalescas.
Serão descritos a seguir, mascas importantes dessa cultura carnavalesca que estão presentes na narrativa do romance “Memorial do Convento”.


A PROCISSÃO CARNAVALESCA DO “CORPO DE DEUS”
No capítulo III de “Memorial do Convento”, Saramago apresenta o episódio religioso em que toda igreja juntamente com seus fiéis seguem o ritual do cortejo do “Corpo de Deus” (Corpus Christi) que se assemelham aos rituais festivos carnavalescos rabelaisianos.
Saramago descreve todo um ritual sério que segue pelas ruas estreitas, imundas e fétidas de Portugal. Sua descrição faz referência às ideologias dos cultos sérios, que condenavam o riso. Porém, ele relata as excitações sexuais, o desejo reprimido e todos os tipos sentimentos proibidos e reprimidos pelas doutrinas na igreja, isso, tanto dos fiéis quanto dos membros do clero.
Os seus fiéis seguem atrás e, mais à frente, os padres e bispos, fazendo frente ao cortejo da procissão. Seus rostos sérios refletem a grandeza e a devoção do momento. Das janelas das casas, os olhos curiosos e ávidos por um mexerico, observam a procissão e os fiéis que fazem penitência e se autofragelam para pagar os pecados.
A noção de carnavalização definida por Bakhtin cujos procedimentos rompem com os preceitos da história literária tradicional se preocupa em identificar poéticas para uma nova época.
Em “Memorial do Convento” o discurso narrativo solto da procissão do “Corpo de Deus” descreve homens e mulheres e a tortura dos corpos para a purificação da alma em misto ao frenético ritmo acelerado dos corpos dominado pelos rituais religiosos e exaltações espirituais.
Durante o tempo quaresmal, se privavam de comer, beber e dos prazeres da carne, para depois participarem do banquete. “Vai sair a procissão de penitência. Castigámo-la a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite. Comendo pouco purificando-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma.”(SARAMAGO, 1997, p. 28)
Os homens que seguem a procissão utilizam instrumentos como o chicote para a própria tortura e levam consigo enfeites de fitas coloridas no auto da cabeça e de longe, as esposas avistam seus amados no ritual de penitência e prazer.
Presas no alto do gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa, ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, [...].(SARAMAGO, 1997, p. 29)
Todo esse ritual de veneração, dor e piedade se misturam com o suor dos corpos e também com o prazer do ato sexual, tudo devido ao prazer em exercer o ato de fé.
[...] é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergada violenta e que, não podendo falar, berra como o toiro no cio, mas se às mais mulheres da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergada foi de um jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas, as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o latejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e apertam e abre as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. (SARAMAGO, 1997, p. 29)
É semelhante à procissão carnavalesca rabelaisiana dos espancamentos durante o banquete de casamento, ou seja, as “grosserias-destronamento” em que o cortejo sai pela praça pública a fora com “chicaneiro” todo enfeitado e espancado, e fazendo tudo isso “rindo”, enquanto sua esposa fica a chorar e rir ao mesmo tempo em que o amado é espancado e injuriado. (SARAMAGO, 1997)
Aqui, Bakhtin relata um trecho semelhante aos festejos carnavalescos da procissão do “Corpo de Deus”:
À luz desses fatos, a paródia de Rabelais não parece mais tão surpreendente nem monstruosa. Ela apenas desenvolve todos os elementos do drama satírico que já existiam nas imagens tradicionais da festa: a do monstro trazendo ao dorso uma pecadora, os gigantes e os negros, os movimentos indecentes da dança, etc. É verdade que Rabelais narra o fato de uma maneira tão audaciosa quanto consciente. Nesse ambiente de drama satírico, nem a imagem dos cães urinando, nem os detalhes relativos à cadela no cio devem espantar-nos. Recordemos também o caráter ambivalente da rega pela urina, a idéia de fecundidade e de potência sexual que ela contém. Não é à toa que Rabelais nos explica que os cães fizeram um regato com a sua urina, o qual passou em Saint-Victor, e do qual se viu Gobein para tingir os seus tecidos. Todos os episódios que examinamos até aqui, estão diretamente ligados a festas específicas (matança do gado, vindima, perdão jubilar, festa do Corpo de Deus). O tema da festa exerce assim uma influência determinada sobre a organização das suas imagens. Mas há no livro de Rabelais algo mais do que o reflexo direto de folguedos precisos sobre os acontecimentos. (BAKHTIN, 1999, p. 200)
É também semelhante à ambivalência do “baixo” material corporal relatado por Bakhtin, o espancamento e a dor, fazem parte do ritual de renovação espiritual, ou seja, todo o sofrimento do corpo faz com que o espírito se renove.
As diversas cenas de pancadaria são idênticas em Rabelais. Todos esses reis feudais (Picrochole e Anarche), os velhos sorbonistas (Janotus de Bragmardo), os sacristãos (Tappecoue), todos esses monges hipócritas, esses tristes delatores, sinistros egelastros que Rabelais aniquila, despedaça, golpeia, afugenta, maldiz, injuria e ridiculariza são os representantes do velho mundo e do mundo inteiriço, do mundo bicorporal que dá a vida ao morrer. Quando se elimina e se rejeita o velho corpo que o morre, corta-se ao mesmo tempo o cordão umbilical do corpo novo e jovem. Trata-se de um único e mesmo ato. As imagens rabelaisianas fixam o próprio instante da transição, incluindo os seus dois pólos. [...] Por causa disso, os golpes e injúrias se transformam em alegre ato festivo. (BAKHTIN, 1999, p. 179)
Junto ao ritual religioso que faz parte da procissão, há a privação dos prazeres da vida para alcançar o perdão dos pecados na época da quaresma e do outro a abundancia do comer e beber, como que se devesse alimentar o corpo só depois de alimentar o espírito.
Saramago relata na obra a diferença social exagerada, ou seja, de um lado os que comem demais, pelo puro prazer de banquetear, que tem ricas refeições diárias, assim como os banquetes carnavalescos. (BAKHTIN, 1999)
Correu o estrudo essas ruas, quem pôde empanturrou-se de galinha e de carneiro, de sonhos e de filhós, deu umbigadas pelas esquinas quem não perde vaza autorizada, puseram-se rabos surriados em lombos fugidiços, esguichou-se água à cara com seringas de clisteres, sovaram-se incautos com réstias de cebolas, bebeu-se vinho até ao arroto e ao vómito, partiram-se panelas tocaram-se gaitas, e se mais gente não se espojou, por travessas, praças e becos, de barriga para o ar, é porque a cidade é imunda , alcafitada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando chove. Agora é temo de pagar os cometidos excessos, mortificar alma para que o corpo finja arrepende-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa. (SARAMAGO, 1997, p. 28-29)
Já do outro, estão os miseráveis e maltratados de “barriga agarrada às costas”, como se sua condição social fosse uma providência divina. Mas o que se pode perceber é que todos fazem parte desse ritual religioso como um só corpo. Por isso que todo esse ritual da procissão e o ambiente carnavalesco podem ser caracterizados como universal, uma vez que ela está presente em cada uma das imagens da procissão.
Mesmo com as diferenças sociais, a procissão segue. Desta forma, assim como o carnaval da Idade Média da época de Rabelais descrevia todo o espaço e ambiente carnavalesco para atingir de forma indireta a sociedade burguesa e o poder real.
Assim também Saramago descreve a procissão do “Corpo de Deus”, o ambiente fétido e imundo de Lisboa, povoado de “cães lazarentos e gatos vadios”, as relações de infidelidade conjugal, o poder absoluto da igreja sobre os fiéis, a diferença entre os miseráveis famintos e a minoria que se farta de comida e regalias. Esse ambiente possui imagens polifônicas carregas de significações que fazem parte desse copo carnavalesco que é a procissão.
O AUTO DA FÉ: O BANQUETE
“Memorial do Convento” possui parte da narrativa retirada dos acontecimentos portugueses que marcaram o período literário barroco entre os séculos XVI e XVIII. Em meio aos acontecimentos históricos e culturais, a ficção é criada por Saramago e faz um retrato verossímil do passado português, considerado moralista religioso e literário, que foi responsável por muitas mortes na fogueira e comandadas pela “Santa Inquisição”, denominado pelo clero de “auto-de-fé”
É possível perceber que todo esse moralismo, apesar de cruel, era bastante afeiçoado pelos portugueses, é o chamado de “[...] moralismo de sacristia, [...] Uma certa macieza na própria maldade é sinal de que o nosso povo os conhecia e afeiçoava.” (SIMÕES, Apud. FILHO, 1993, p. 24)
Numa época em que o mundo se voltava para as ideias que aproximam da ciência e o mundo moderno, “Memorial do Convento” retrata a nobreza de Portugal numa forte ligação com o clero, unidos em um mesmo ideal de acabar com todas as ameaças aos princípios religiosos, por meio da inquisição. ( FILHO, 1993)
Um relato desse moralismo religioso é contado no capítulo V, em que todo o povo se desloca de suas caras para a celebração bastante comum naquela sociedade. O mesmo povo sofredor que vive sob forte domínio do rei e da igreja, são os mesmos que celebram as mortes pela inquisição.
Grita o povilho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espetáculo edificante a toda a cidade, [...]” (SARAMAGO, 1997, p. 50)
As fortes ligações do povo com a igreja e os autos-de-fé que é um ato desumano, se tornam motivo de celebração, como em uma data festiva. O local das fogueiras desses dias se transforma um grande espetáculo, com palco de tortura e a grande multidão como espectadora e passiva.
O assujeitamento vivido por eles é fruto desse discurso religioso moralista, que faz com que os autos-de-fé sejam atrativos do que o próprio lazer.
Os relatos dos “autos-de-fé” descritos em “Memorial do Convento” trazem as marcas das grandes festas e banquetes carnavalescos, parte das características originais do carnaval contextualizado por Rabelais.
A sincronia polifônica dos ambientes festivos carnavalescos, a universalidade do banquete simbolizando a confraternização do ato digno de celebração. (BAKHTIN, 1999)
Toda a narrativa desse acontecimento trás ao leitor o exagero das imagens dessa celebração, desde a preparação das pessoas para um ambiente festivo, ao saírem de suas casas trajando as melhores roupas, até o vocabulário irônico adotado pelo narrador, que por meio da sua onisciência, coloca o leitor ciente dos fatos do cotidiano de Lisboa.
Há todo um preparo do ambiente e das pessoas para o evento com enfeites, boas vestimentas e boa aparência. Uma atmosfera festiva e carregada em que o cheiro dos corpos queimados se junta à celebração do grande banquete com enorme variedade e abundância de comida, bebida e dança.
Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. (SARAMAGO, 1997, p. 48)
Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queira morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até na hora de morrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, El-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda [...] (SARAMAGO, 1997, p. 51-52)
A ausência da rainha no “auto-de-fé” devido as dificuldades na gravidez e o luto pela morte do irmão são evidenciados a vida íntima da rainha, como as imagens carnavalescas do parto e também a linguagem grotesca semelhantes aos textos de Rabelais.
É como recortes da realidade cultural portuguesa, construída de forma carnavalesca e ambivalente, em que o retrato da mulher grávida como símbolo da vida, contrapõe-se às morte. E tudo é finalizado com festa e alegria e no mesmo ambiente há o sinal de morte e de vida.
D. Maria Ana não está no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, me acréscimo dos afrontamentos de que vinha padecendo há muitos meses, demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segura-la mais, sendo tão pouco tempo de gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda gora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, afinal era só a tripa empedernida. (SARAMAGO, 1997, p. 47)
É colocada aqui a figura do rei como personagem fundamental do carnaval. Mesmo com todos os sentimentos e imprevistos é naturalmente indispensável sua figura para a celebração do “auto-de-fé”.
Para ele, a pesar de do luto na família, nada o impede de participar da celebração da inquisição. Como monarca e soberano de toda uma nação, sua imagem deve superar a de todos os seus súditos, em exemplo de fé, de poder e de bons ensinamentos.
El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de determinado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do inquisidor-mor, soberbíssima de tigela de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com tudo quanto lhe compete, açafroado, de manjar-branco, enfim doces fritos e frutas do tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não. (SARAMAGO, 1997, p. 49)
A pesar da morte, o sentimento alegre faz parte do contentamento espiritual, em uma ambivalência semelhante às festas carnavalescas rabelaisianas.
Toda a atmosfera séria e tensa passa a fazer parte de um grande banquete dos quais as vítimas, assim como o “chicaneiro” citado por Bakhtin, são motivos da festa, ou seja, sua morte é o ponto chave, um ritual de celebração para a remissão dos pecados e o renascimento para uma nova vida.
Essa liberdade do riso, como qualquer outra liberdade, era evidentemente relativa; seu domínio se alargava ou diminuía alternadamente, mas não foi jamais totalmente interdita. Já vimos que essa liberdade, em estreita relação com as festas, estava de certa forma confirmada aos limites dos dias de festa. Ela se fundia com a atmosfera de júbilo, com a autorização de comer carne e toucinho, de retomar a atividade sexual. Essa liberação do riso e do corpo contrastava brutalmente com o jejum passado ou iminente. A festa marcava de alguma forma uma interrupção provisória de todo o sistema oficial, com suas interdições e barreiras hierárquicas. Por um breve lapso de tempo, a vida saía de seus trilhos habituais, legalizados e consagrados, e penetrava no domínio da liberdade utópica. O caráter efêmero dessa liberdade apenas intensificava a sensação fantástica e o radicalismo utópico das imagens geradas nesse clima particular. (BAKHTIN, 1999, p. 77)
A associação dos dois pólos tão diferentes, a morte da fogueira e o banquete estão ligados a todas as outras imagens carnavalescas, uma vez que todas elas têm uma ambivalência, semelhante às celebrações sérias dos festejos carnavalescos da Idade Média.
Sendo assim, percebe-se que os autos-de-fé narrados em “Memorial do Convento” se transformam em uma das festas preferidas do povo e transforma toda seriedade em ironia. Os mesmos líderes da igreja, supostamente representantes de Deus aqui na terra, são os mesmos a condenar as pessoas à morte de fogueira e ocultar os próprios erros.
A INAUGURAÇÃO DO MARCO INICIAL DO CONVENTO
Em toda a história de Portugal a literatura buscou retratar os grandes acontecimentos, ou os grandes feitos desse povo. É o que o narrador apresenta neste caso, no episódio de inauguração do marco inicial que dá início às obras do convento de Mafra.
Assim como todo grande acontecimento digno de grandeza, a celebração deste grande feito marca o poder econômico e o domínio da burguesia, constituída pela minoria localizada no topo da hierarquia social portuguesa: o rei e o clero.
Assim como Camões contou o passado glorioso desse povo, também estão presentes nessa narrativa, a força e o poder de uma nação e reconhecimento perante as outras, suas riquezas e conquistas materiais. “Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, [...]”. (SARAMAGO, 1997, p. 130)
Assim como uma nação vencedora que outrora cruzou os limites de oceanos construíram um passado digno de lembranças, assim também são as pretensões do rei, que por meio da promessa, almeja conseguir algo inédito.
Toda a cerimônia narrada neste episódio, mostra ao leitor o tamanho dos sonhos que a burguesia almejava alcançar. A grandeza que o rei propõe é medida de acordo com o tamanho do convento.
A figura real para a sua nação é indiscutivelmente aclamada e o próprio rei faz tudo para manter a soberania e também a sua vaidade, porém, de forma que seus princípios reais não se oponham aos poderes e dogmas da igreja. Isso pelo fato de ser dividido entre as ideias iluministas, as quais davam impulso à sua grandeza perante as outras nações e com seus princípios religiosos.
Neste caso, todo o poder da burguesia religiosa se volta para o grande feito, como uma antecipação da vida celeste terrena.
Venham pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, lês que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto,[...]. (SARAMAGO, 1997, p. 127)
[...] sabendo que el-rei, chegado a Mafra e informado do sucesso, se pôs, ele, a distribuir moedas de ouro, assim, com esta mesma facilidade com que o contamos, porque os oficiais da obra em dois dias tinham tornado a levantar tudo, multiplicaram-se as moedas, que foi bem melhor que terem-se multiplicado os pães. É el-rei um monarca previdente que sempre leva arcas de ouro para onde vá, [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 128)
Quando el-rei chagar, primeiro encarará coma as três largas portas da frontaria, tendo por cima um quadro que representa os santos Pedro e João naquele acto de sararem o mendigo que lhes pediu esmola à entrada do templo dito de Jerusalém, insinuada esperança doutros milagres que venham a produzir-se aqui [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 129)
D. João V. vaidosamente usa seus direitos reais para realizar esses grandes acontecimentos para se eternizar na história portuguesa, ou seja, ele sacrifica toda a nação e a obriga a trabalhar em prol a sua promessa para que sua linhagem real se perpetue.
Juntamente com o rei, o clero e suas autoridades religiosas são detentoras de grande poder autoritário e financeiro. Possuem grande riqueza e luxo ostentado nas vestes cravejadas de pedras preciosas extraídas das colônias portuguesas.
Todo luxo ostentada pelo rei e pelo clero eram retirados das riquezas mineras de suas colônias, principalmente do Brasil, para confecção das vestes reais e sacerdotais.
[...] e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, canelões de sobrepelizes, grandes cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cônegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empós, sustentando-lhes as caudas, os caudatários,das, os caudatbranca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empse as moedas, que foi bem melh e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca , e grande número de gente [...].(SARAMAGO, 1997, p. 131)
O ambiente e também na arquitetura das grandes igrejas e conventos é o retrato da exploração que são encobertas por uma ideologia de uma justiça religiosa da luta do bem contra o mal.
De forma hierárquica, a sociedade portuguesa estava para prestigiar a inauguração. Mas essa mesma sociedade é ideologicamente assujeitada ao poder do rei e da igreja. Mesmo contra a vontade, são obrigados a deixar seus próprios trabalhos para atender a construção do convento.
Grande multidão se reúne ao redor da igreja e por serem pobres ou por estarem sujos, não são permitidos a entrar na igreja. Apenas a burguesia é permitida a ocupar os lugares de destaque. “[...] e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram antes de insinuar-se, [...]”. (SARAMAGO, 1997, p. 131)
A grandeza da arquitetura do convento e as enormes pedras para colocar na porta principal, tornam-se uma representação da fé. Todo tesouro da nação é disponibilizado para a construção do convento, enquanto a grande maioria da população sobrevive miseravelmente e acreditam ideologicamente que todo esforço viria a ser recompensado por Deus, mesmo que lhes custasse a própria vida.
Agora despachem-se com isto, há mais de seis anos que fiz um voto, não estou para andar com os franciscanos à perna todo o tempo, então, então o nosso convento, por causa do dinheiro não sejam os atrasos, gastam-se o que for preciso. Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa real majestade que na inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse o porque ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que queremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos. (SARAMAGO, 1997, 133)
O povo faz o trabalho pesado, por acreditar ser necessário, porém o que se percebe é que suas vidas possuem pouca importância perante a burguesia, por isso se distanciam da liberdade. A repressão sofrida abate sobre o povo durante longos anos por acreditarem nas ideologias de uma nação conhecida pela fé.
Desta forma, verifica-se que há uma intenção do narrador em mostrar a figura do rei e do clero, de forma exagerada e espalhafatosa, as quais se distinguem do restante do povo. Há uma grande diferença entre o povo que faz o serviço pesado e os fidalgos e religiosos que se comprometem apenas com os benefícios que lhes trarão a construção do convento, tanto para o rei quanto para o clero.
O ÉPICO DA PEDRA
Estava Baltasar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícias de que era preciso ir a Pero Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico da igreja, tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em duzentas as juntas e bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de ir também para as ajudas. (SARAMAGO, 1997, p. 232)
Do romance “Memorial do Convento”, esse é o episódio em que o narrador descreve minuciosamente o trabalho braçal no transporte de um enorme bloco de pedra de uma cidade à outra, para a construção do maior convento da história de Portugal.
Na inauguração do marco inicial das obras do convento, é possível ver uma sociedade portuguesa rica, poderosa e moralista, a qual possui grande apego aos bens materiais, frutos da exploração de suas colônias.
A exposição maior desse poder acontece por meio de algo que viria a ser um símbolo da fé, mas para isso, toda a população é explorada submetida ao pior trabalho, que é o de carregar a pedra.
Neste episódio verifica-se que a visão da sociedade inferior, os quais os responsáveis pela construção do convento como maior realização real é também o marco da exploração da sociedade.
Após a grande e espalhafatosa celebração, o que resta é o trabalho pesado e o exagero da exploração dos animais e, principalmente, da mão-de-obra humana. A parte do trabalho que é destinada aos considerados o resto da sociedade, pode ser observado como uma “visão de baixo”.
Essa sociedade esquecida aglomera-se aos redores do convento, fazendo crescer cada vez mais a favela e, junto a ela, todas as consequências da miséria e da pobreza.
O trabalho braçal o qual os homens são submetidos passa a ser um retrato do trabalho escravo de toda uma nação, como se tal exploração superasse os castigos do inferno: “Em cima deste valado está o próprio diabo assistindo, pasmado da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.” (SARAMAGO, 1997, p. 250)
Todos são chamados à dura tarefa de carregar a grande pedra. Uma multidão de homens, animais de carga e carros carregam um enorme bloco de pedra para ser colocada na porta de entrada do convento.
Os nomes são que são citados para essa dura tarefa, são retirados dessa sociedade anônima, como representação de todos os que foram chamados.
[...] já que não podemos falar-lhes das vidas, por quantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torna-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horáco, Isídro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada uma para ficaram todos representados, porventura nem todos estes nomes serão, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. (SARAMAGO, 1997, 233)
Cada um possui sua história de vida, que para a socidade fidalga, não possui valor algum e fazem parte da memória desse povo sofrido, como um corpo. E o trabalho realizado na construção do convento, torna-se uma marca de recordação para as futuras gerações.
É deste espaço pobre e esquecido que, por ordem real, os homens são obrigados a irem realizar o trabalho que a burguesia não faz. O anonimato deles e seus nomes são sinônimos da própria servidão a qual são submetidos, isso, pelo fato de serem chamadas apenas as pessoas que possuem deficiência física, ou os que são doentes e rejeitados pela sociedade e que, se morrerem, pouca falta farão aos demais, com exceção da própria família.
[...] pede-se nos deixar sem vida contada aquele Brás que é ruivo e camões do olho direito, não tardaria que se começasse a dizer que isto é uma terra de defeituosos, um marreco, um maneta, um zarolho, e que estamos a exagerar a cor da tinta, que para heróis se deverão escolher os belos e famosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos, assim o tínhamos querido, porém, verdades são verdades, antes se nos agradeça não temos consentido que viesse à história quanto há de belfos e tartamudos, de coxos e prognatas, de zambros e epilépticos, de orelhudo e parvos, de albinos e de Álvares, os da sarna e os da chaga, os da tinha e do tinhó, então assim, se veria o cortejo de lázaros e quazímodos que está saindo da vila de Mafra, ainda madrugada, o que vale é que de noite todos os gatos são pardos e vultos todos os homens[...]. (SARAMAGO, 1997, p. 233-234)
A caminhada de casa ao local da pedra é lenta e pesarosa, como quem se despede da vida e segue rumo à morte. O trabalho e o esforço seguem durante dias, nos quais muitos feridos ficam para trás e os sangues das machucaduras ficam na terra e se misturam sob os pés dos homens, dos animais e as rodas dos carros. O ponto culminante é o momento em que um homem é esmagado pela roda do carro no qual suportava todo o peso da pedra e também os animais feridos, eram sacrificados e servidos como alimento, “[...] recomeçará a pedra a sua viagem, em Cheleiros ficou um homem para enterrar, fica também a carne de dois bois para comer.” (SARAMAGO, 1997, p. 252)
Durante o dia, seguem a lenta e dura tarefa, já à noite, os homens se reúnem ao redor da fogueira e apresenta cada qual, a sua história de vida, como única forma de serem ouvidos.
Todas as histórias de vida eram sempre idênticas, pois entre eles, eram expostos os sonhos e o desejo de cada um. Aqui, o narrador empresta sua voz para cada um deles e marca esse episódio com marcas de polifonia.
Toda a grandeza e importância da qual se destina a pedra, para os trabalhadores não significava nada além de grandes esforços e sofrimentos.
[...] com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de dizer a sua majestade, É uma pedra, e os visitantes, antes se passarem à outra sala, É uma pedra sopor via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o lúdico geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de firmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.(SARAMAGO, 1997, p. 248)
A grandeza da pedra, aqui traz um símbolo da grandeza e do apego material, ou seja, o tamanho da pedra é baseado no tamanho do apego à riqueza e poder, pois, não basta uma pedra pequena, uma vez que não seria suficiente para expressar a soberania do rei e de sua igreja.
Desta forma, pode-se dizer que o rei, junto ao clero possui um discurso ideológico dominador, no qual ocultam todas as verdadeiras intenções. Isso pelo fato de camuflar a exploração do povo, em benefício aos bens materiais, dentro dos discursos religiosos da igreja e também do rei.
A VIAGEM DA COMITIVA REAL
Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Maria Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respectivamente, como se costuma dizer. [...] os casamentos são feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para pouca conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 288)
Na sociedade portuguesa dos séculos XVI à XVIII, podem ser comprovados os dois lados extremos classificados entre os ricos e os miseráveis, conforme foi dito. É neste contexto que o narrador de “Memorial do Convento” constrói o enredo marcante, levando em conta o código ético religioso repressivo e moralista da época.
Nesse episódio, verifica-se a questão do apego ao dinheiro e aos bens materiais, como também, a futilidade do poder e riqueza em superação aos valores espirituais.
Em uma viagem de negócios, a família real portuguesa segue até a Espanha para o casamento de ambos os filhos, o casal de filhos da família real portuguesa com o casal de filhos da família real espanhola.
D. João V e toda a sua comitiva seguem para à Espanha, país este, que antes era seu inimigo, para uma negociação visando benefícios e lucros de ambas as partes, do casamento de ambos os filhos, que por sinal, são crianças e adolescentes. “Tem essa casa três salas, uma de cada lado para os soberanos de cada país, outra central para as entregas, toma lá Bárbara, dá cá Mariana.” (SARAMAGO, 1997, p. 308)
Na comitiva real que segue pelas ruas em direção ao país vizinho, são ostentados todo do luxo e riqueza do rei e da sua comitiva, com números exagerados de criados, servos, escravos e animais. Por onde passam, seguem arrastando multidões de olhares curiosos com tamanha exposição de riqueza.
Pesa aqui também, antigos costumes culturais em que os pais representam a figura machista e, neste caso, utilizam os próprios filhos como objetos de negócio.
Todo o cortejo real é visto e admirado através dos olhos de um velho soldado espanhol que lutou na guerra de Portugal e Espanha, o João Elvas. Aqui, o narrador torna a personagem protagonista deste episódio, como um representante de todo povo que sofre, luta, relembra o passado e sonha com um futuro promissor, ao presenciar o evento.
Mas a festa vem aí. Já se ouvem ao longe toques de trombetas bumbos de atabales, acelera-se o velho sangue militar de João Elvas, são emoções esquecidas que de repente voltam, é como ver passar uma mulher quando delas não há mais que lembranças, e, ou por riso, ou por um bandear de saia, ou por um jeito dos cabelos, sentem um homem derreterem-lhe os ossos, leva-me, faz de mim o que quiseres, tal qual como se nos chamasse a guerra. (SARAMAGO, 1997, p. 292)
E toda a reverencia é prestada ao rei no momento em que ele passa arrastando multidões que o seguem mendigando esmolas e dinheiro.
”[...] e agora atenção, agora é que vai começar a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas a seguir, a cavalo, aparece o estribeiro-menor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. Antônio, é o teu rei quem passa, papagaio real quem vai à caça, vê que majestade, que presença incomparável, que gracioso e severo semblante, assim Deus estará no céu [...] (SARAMAGO, 1997, p. 293)
Verifica-se que a representação e o valor dos bens materiais que D.João V deixa evidente que os valores materiais que ele e sua comitiva ostentam.
Compreende-se que há exploração do trabalho dos criados e dos que sofrem com a grande e dura tarefa de servir a família real durante a longa caminhada, assim como ocorrem ns obras do convento. “Saiba vossa alteza que aqueles homens vão trabalhar para Mafra, nas obras do convento real, são do termo de Évora, gente de ofício, E vão atados porquê, Porque não vão de vontade, se os soltam fogem [...]” (SARAMAGO, 1997, p. 303)
Na viagem, a chuva castiga toda a comitiva e, ao observar os esforços desumanos os quais são submetidos os servos, a família real descansa e observa tranquilamente sem demonstrar devido valor. “Agora não está a chover, mas o frio aperta e queima as carnes, não faltam frieiras por essas mãos, apesar dos regalos e das damas, falamos das damas, claro está, tão entanguidas e constipadas que fazem dó[...]” (SARAMAGO, 1997, p. 299-300)
Com a chuva, os trabalhos são multiplicados e, nesse caso, a filha do rei contempla a si própria o real motivo da exploração, sem se quer ao menos ter ido ao convento.
A princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de que, a final, nunca foi a Mafra, que estranha coisa, constrói-me uim convento porque nasceu Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara não viu, não sabe, não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda, não serviu com sua mão o caldo dos pedreiros, não aliviou com bálsamo as dores que Sete-Sóis sente no coto do braço quando retira o gancho, não enxugou as lágrimas da mulher que teve seu homem esmagado, e agora vai Maria Bárbara para Espanha, o convento é para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória[...] (SARAMAGO, 1997, p. 304)
A família real é sempre rodeada pela burguesia pelos criados reais, devido ao interesse em relacionamentos pessoais por interesses materiais e benefícios próprios, mesmo que estes custem a exploração do trabalho das outras pessoas.
Observa-se que o cortejo da família real e todos que o acompanham, possui semelhança com as imagens de Rabelais (BAKHTIN, 1999), as quais estão ligadas aos banquetes carnavalescos.
Assim como ocorre em outros episódios de “Memorial do Convento”, os quais foram analisados, neste a carnavalização significação está relacionada aos excessos da vida material e faz criticais sociais às principais classes altas da época que são: o clero, a realeza e a burguesia, os quais são responsáveis pela detenção de toda riqueza e também, da exploração da vida humana em benefício próprio.
Assim, ocorre no episódio da viagem da família real a visão externa desse cortejo mostra um assujeitamento ou mesmo submissão da população aos interesses reais. A distribuição de esmolas e sobras de comida no decorrer do caminho, atribui ao rei uma imagem bondosa, quando na verdade, o almejado é sempre a pretensão à riqueza com a garantia de que seu nome, D João V ficará para sempre na história devido ao casamento dos filhos.