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sexta-feira, maio 25, 2012

LITERATURA REGIONAL - CARLOS ALBERTO SUNIGA DOS SANTOS E SUA OBRA "IMAGO" (2002)

by RÔMULO GIÁCOME DE O FERNANDES

A presente postagem objetiva apresentar um pouco da produção poética de Carlos Alberto Suniga dos Santos e sua obra "Imago" (2002). O presente conteúdo foi comunicado por mim no 3º SILIC, Simpósio de Literatura Contemporânea, que ocorreu em Vilhena (24 de Maio, 2012).


O regional sempre foi motivo de muito embate. Até hoje não é possível antever uma solução a este dilema teórico, uma vez que a crítica balizada anda “preguiçosa”, como afirmou Milena Magalhães, na abertura do 3º SILIC, Vilhena, 2012. No entanto, no diapasão entre as cores locais, o localismo geográfico e temático; para com a produção “na”, nascida aqui, consumida aqui e criticada aqui, celebro a tese de que o nosso circuito crítico ainda é muito deficitário, o que desfalece qualquer tentativa de produção artística local. O regional deve ser tratado também em toda a sua dimensão: público leitor, divulgação e distribuição, crítica, proliferação popular nas mídias, entre outras situações, que devem ser retroalimentadas. Somente assim podemos falar em evolução do regional para o universal, e romper barreiras naturais da leitura e produção de literatura em nosso Estado. Nessa esteira de discussão, apresento-lhe o maravilhoso Carlos Alberto Suniga dos Santos, poeta maior, de Cacoal, ativista da literatura, militante da docência e artista plástico. A metodologia utilizada foi considerar mais a produção do que a análise. Divididas em três categorias, os poemas aglomeram-se por unidades temáticas.

1 METAPOEMA

As poesias “Escriba, Imago e palavra” possuem uma temática que concentra a ideia de “[...] a linguagem e seu poder de estar sempre se transformando[...]”, tendo como fator principal os códigos semióticos e sua capacidade de remontar formas, cores e sinais comunicativos.

Nas palavras há algo
como de ponta de arco-íris
que sempre se cumpre ligeiro
e distante do olhar perdido  
                     (Imago, 2002)

Na estrofe acima é possível antevermos a “potência poética”, ou seja, o caráter ideal do sentido; o final do arco-íris que nunca será debastado ou ao menos visto, é o sentido final do texto, sua pragmática enquanto motor da linguagem.
Neste contexto, o metapoema quer referenciar exatamente este poder que a linguagem poética possui ao modular em busca de despertar a curiosidade do leitor.    

Todas as coisas são palavras
                                 (Palavra, 2002)

O poema “Palavra” afirma que tudo o que pensamos, fazemos ou respiramos, se infesta de linguagem. Além de inverter a noção coisa / palavra ou palavra / coisa.

Inverter a ordem,
Subverter o sentido.
Revelar aos olhos
Este som esquecido.
                     (Escriba,2002)


Traduzimos uma inquietação dentro da perfomance do signo poético. Remontar, montar e sucumbir aos desígnios das possibilidades combinatórias dos referentes, bem como assinalar a potência da relação entre camadas significantes díspares, como imagem, som e texto.
Em suma, “Escriba” é um poema que retrata a linguagem literária, sendo que sua práxis poética está sob a égide de “subverter o sentido”. A figura de estilo que melhor representa essa ideia é a metáfora, pois se apropria de uma palavra dando-lhe um novo significado.

2 UMIDADE

A obra Imago foi constituída por quarenta e cinco poemas, e dentre esse poemas podemos observar uma marca própria do autor Carlos Alberto Suniga. A presença frequente das palavras “umidade” ou de elementos semânticos que estão ligados a ela. A palavra “Umidade” e seus desdobramentos está presente em oito poemas da obra. O que deve ser observado é que em grande parte dos poemas não há repetição de seu significado, ou seja, em cada situação apresenta um novo sentido. É um desdobramento do úmido enquanto instrumento de comunicação poética.
                                
A onda e sua úmida curva,
O vento em seu aéreo movimento
A terra no tremor do afastamento.
                                 (palavra, 2002)


Zumbido de luzes,
Escorrendo...
Líquidas aquarelas furtadas,
Rolar de faíscas úmidas
De diluídos brilhos,
De vozes caladas.
Correnteza, na leveza,
Desejada.
                     (Regato, 2002)
              


As caravelas de nuvens
em nossos olhos.
Eu e você,
sentado, lado a lado,
e cada um
num dos extremos do mundo.
Sempre a presença úmida
da traição inconfessada no beijo último.
                     (Distância, 2002)


  E uma tristeza úmida em mim se enraizou
                                                           (saudade, 2002)

A construção que flutua e concatena camadas de sensações e sentimentos, formam uma sinestesia em perfeita conjunção.
                                              
                                                                                 
                          Não salvei, tão curtos meus dias,
  de chuva, e de úmidas respostas,
  as coisas mais simples e pequenas
  que da vida se mostram despretensiosas.                                                                              (Amanhã,2002)

A umidade forma um processo contíguo de valorização expressiva da palavra em busca de sua subjetividade, sendo utilizada como emuladora impessoal do sentimento.

                          A manhã tem o silêncio úmido
  dos desacordados suores da terra.
  É como um olho desperto
  depois de uma noite eterna.
                                                           (Manhã, 2002)

                                              
                          São como que brilhos turvos,
                          Na noite enluarada,
                                      Fagulhas de faíscas úmidas,
                                      Rompendo a madrugada.
                                                           (As estrelas, 2002)

Inscrita na base da forma, além da possibilidade visual, é aberta, na estrofe acima, uma possibilidade dimensional, onde o movimento das faíscas ensejam a possibilidade do seco / molhado da entropia poética.

3 AUSÊNCIA
A palavra “ausência” se repete em nove poemas da obra Imago, seguindo uma mesma estrutura de “umidade”, pois em cada a palavra “ausência” possuem significados diferenciados, tornando-seum signo poético. Vejamos a seguir.

                          Talvez tudo isso seja apenas
                          a chuva fina que cai.
                          Ou talvez essa tua ausência,
                          de uma distancia tão presente
                          que me tem assim enevoado
                       (saudade)


Literalmente, a palavra ausente surge como manifestação da tensão entre o ser / estar no mundo com alguém. Elemento típico do poeta.
                         
                          Como se já não houvesse o amanhã...
  existisse apenas uma ausente rota,
  me perdi, vencidos tantos anos,
  nessas horas escuras e mortas
                                               (IMAGO, AMANHÃ, 2002)

  E a vida que passava, distante,
escorria entre as nossas saudades.
Do futuro só a lembranças,
projetos ainda inacabados.
Do presente a ausência
                                      cada vez mais forte, nossos temores,
                                      e a certeza da distância dilatada.
                                               (A partida, 2002)


                                      Eles vêem o não visto                      
                                      o quase ausente.
                                      O que já fora antes,
                                      E o amanhã do presente.
                                                           (os olhos do menino cego, 2002)

 O interessante nesse poema é que ausência nessa estrofe tem valor literal. Nesse caso, o autor não usa a palavra ausência metaforicamente, mas sim, quando fala “o quase ausente”, quer referenciar como funciona a vida de uma pessoa cega, em outras palavras, a negação da imagem.

                                      Há toda uma ausência nas palavras.
                                                                       (Imago, 2002)
                                                                      

Em suma, a preocupação formal do texto, sua tessitura e estrutura, bem como o jogo tridimensional com formas e sons, perfazem traços típicos de um poeta maior, astuto nos recursos, profundo na cosmovisão, atento nas malícias / delícias da palavra, mas que as limita, traz para dentro de si, com medo de fugirem rumo a fugacidade da falsa poesia, irmã da retórica sustentada em pés de barro. Indispensável leitura.


2 comentários:

monica giselli freitas disse...

Muito bom esse livro ... o que eu mais gosto é "Vicent" uma referência a Vicent Van Gogh, muitos não compreendem por conhecê-lo apenas por Van Gogh e por não conher a fundo suas principais obras... genial modo como o professor Suniga se refere as obras de Van Gogh....Bem interessante sua análise porfessor Rômulo, incrível como conseguimos ler de outra maneira após a leitura da análise, você passa a ver as coisas de um geito diferente...
Muito interessante seu blog... Congratulações!!

Messias Pereira disse...

Gostei muito!